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A crise do sono no trabalho

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representa um avanço importante ao reconhecer os riscos psicossociais como parte da gestão corporativa. A medida acompanha uma mudança evidente no mercado: saúde mental deixou de ser uma agenda periférica e passou a impactar diretamente produtividade, afastamentos e custos empresariais. No entanto, a nova diretriz nasce com uma lacuna relevante e pouco debatida no ambiente empresarial: o sono.

Ao priorizar fatores como estresse, sobrecarga e pressão por desempenho, a NR-1 ignora um dos principais determinantes fisiológicos desses riscos. A consequência é objetiva: empresas passam a atuar sobre os sintomas, sem enfrentar uma de suas causas estruturais.

Saúde e performance

O problema é especialmente crítico no Brasil. Dados recentes indicam que 20% dos brasileiros dormem menos de seis horas por noite, enquanto 31,7% apresentam sintomas de insônia. Em outra frente, estudos apontam que até 72% da população enfrenta algum tipo de alteração no sono.

Não se trata apenas de saúde individual. Trata-se de performance. A privação de sono compromete atenção, memória, tomada de decisão e regulação emocional. Esses são exatamente os pilares que sustentam ambientes produtivos e seguros. Em setores relevantes para Minas Gerais, como mineração, indústria e logística, esse impacto se traduz em risco operacional concreto.

Um estudo com trabalhadores da Região Metropolitana de Belo Horizonte já indicava alta incidência de sonolência diurna (mais de 60%) e prejuízos cognitivos associados, como dificuldade de memória e atenção. Em ambientes de alta exigência, esse cenário amplia a probabilidade de falhas humanas e acidentes.

Paradoxo

Ainda assim, o modelo corporativo segue operando na contramão. Jornadas prolongadas, hiperconectividade e baixa previsibilidade de descanso continuam sendo práticas naturalizadas em muitas organizações. O resultado é um paradoxo: empresas discutem saúde mental, mas mantêm estruturas que produzem, de forma sistemática, privação de sono.

Do ponto de vista de gestão, isso representa um risco silencioso. Programas de bem-estar, apoio emocional e gestão do estresse tendem a gerar impacto limitado quando não incorporam o sono como variável estratégica.

A própria evolução regulatória deve pressionar esse debate. À medida que a agenda de saúde mental avança e a judicialização trabalhista ganha espaço, cresce a exigência por modelos de prevenção mais consistentes e baseados em evidências.

Governança corporativa

Nesse contexto, o sono deixa de ser um tema comportamental e passa a ocupar um lugar claro na governança corporativa. Empresas que anteciparem essa discussão, incorporando políticas estruturadas de saúde do sono, tendem a capturar ganhos relevantes: aumento de produtividade, redução de erros operacionais e mitigação de riscos psicossociais.

A NR-1 avança ao reconhecer o problema. Mas, ao deixar o sono fora da equação, ainda não alcança sua causa em profundidade. Ignorar esse fator é, na prática, manter ativo um dos principais vetores de risco dentro das organizações.

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