NR-1 avança na gestão de riscos psicossociais, mas ainda ignora fator estratégico: o sono
Norma representa passo importante, mas enquanto não incorporar o tema à equação, continuará tratando efeitos sem enfrentar integralmente suas causas.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir das empresas maior atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, representa um avanço importante para a saúde corporativa no Brasil. A medida reconhece uma realidade cada vez mais evidente: o adoecimento emocional e mental deixou de ser um problema isolado para se tornar um desafio estrutural, com impactos diretos sobre produtividade, segurança, clima organizacional e sustentabilidade financeira das empresas.
No entanto, apesar do avanço regulatório, existe uma lacuna crítica na discussão: o sono ainda não é tratado como um elemento central na gestão desses riscos. Ao abordar fatores como estresse ocupacional, pressão por desempenho, sobrecarga cognitiva e esgotamento emocional, a norma deixa de considerar um dos principais determinantes fisiológicos desses processos. A privação e a má qualidade do sono não apenas acompanham o sofrimento mental: elas potencializam, prolongam e, muitas vezes, desencadeiam o problema.
A ciência já demonstra, de forma consistente, que dormir mal compromete funções cognitivas, reduz a capacidade de tomada de decisão, afeta o equilíbrio emocional, aumenta o risco de acidentes e impacta diretamente a produtividade. Ainda assim, muitas organizações continuam operando em modelos marcados por jornadas extensas, hiperconectividade, excesso de estímulos e baixa previsibilidade de descanso.
O resultado aparece nos indicadores de saúde e performance. Um estudo da RAND Corporation aponta que a privação de sono gera perdas anuais de aproximadamente US$ 411 bilhões para a economia norte-americana em produtividade. Já análises da Harvard Business Review mostram que o presenteísmo, quando o profissional está fisicamente presente, mas opera com baixa capacidade funcional devido ao cansaço e à exaustão, pode custar mais de US$ 150 bilhões por ano às empresas.
No Brasil, embora ainda exista pouca mensuração estruturada sobre o impacto econômico do sono nas organizações, os sinais são alarmantes. Somente em 2025, o país registrou mais de 546 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais, gerando impacto superior a R$ 3,5 bilhões em benefícios previdenciários.
Esse cenário evidencia um desalinhamento entre a regulação trabalhista e as evidências científicas mais atuais. Na prática, muitas empresas estão implementando políticas formais de gestão emocional e saúde mental, mas sem atuar sobre um dos pilares biológicos que sustentam a saúde física, cognitiva e emocional dos trabalhadores.
Mais do que uma pauta de bem-estar, o sono deve ser tratado como uma variável estratégica de gestão de risco corporativo. É justamente nesse contexto que iniciativas estruturadas ganham relevância dentro das organizações. O PGES (Programa de Gestão Estratégica em Saúde do Sono) surge como uma solução corporativa voltada para o mapeamento epidemiológico do sono nas empresas, a partir de inquéritos populacionais capazes de identificar riscos, prevalências e padrões de adoecimento relacionados ao descanso e à recuperação física e mental dos colaboradores.
Com base nesses dados, o programa desdobra estratégias integradas de prevenção, promoção da saúde e intervenções clínicas direcionadas, incluindo encaminhamento diagnóstico e definição de condutas quando necessário. O objetivo é transformar informações epidemiológicas em inteligência corporativa, permitindo que as empresas atuem de forma preventiva, reduzam riscos operacionais e fortaleçam indicadores de produtividade, segurança e governança.
Em setores de alta demanda cognitiva ou operacional, ignorar o sono significa manter ativa uma parcela significativa do risco que se pretende controlar. A tendência é que esse tema ganhe ainda mais relevância nos próximos anos, impulsionado pelo avanço da agenda ESG, pela ampliação das discussões sobre saúde mental e pelo aumento da judicialização relacionada às condições de trabalho.
Empresas que compreenderem o sono como um ativo estratégico, e não apenas como uma questão individual, estarão mais preparadas para enfrentar os desafios contemporâneos de gestão de pessoas, desempenho e sustentabilidade organizacional.
A NR-1 representa um passo importante. Mas, sem incorporar o sono à equação, a gestão de riscos psicossociais continuará tratando os efeitos sem enfrentar integralmente suas causas.
*Renata Aurichio é especialista em saúde do sono, CEO da Primar Saúde do Sono e uma das vozes atuantes nos debates dos setores público-privado para o avanço do cuidado do sono no ambiente corporativo.
